Destaque dedicado aos Amigos OLGA KAPATTI.K e EUGÉNIO DE SÁLágrima _ Essência da alma!
Olga Kapatti.k
A lágrima tem sua nascente
no mais íntimo do homem,
brota-lhe por um sentimento forte
a lhe tocar o coração:
__Uma emoção!
É o desejo que aflora.
É a alegria pungente
do amor que retorna.
É a dor da saudade
que invade.
É o lampejo do ser
a mostrar-se
sem disfarces.
O homem se preocupa
quando não consegue
mais chorar .
Sente que lhe secou
a emoção,
que lhe falta algo que acalma,
que lhe falta a essência da alma!
***
Por bem querer
Eugénio de Sá
Alma formosa, de uma essência rara,
Que mais procuras, que mais brilho queres?
- Esplendeces na terra na floral aurora,
Resplandecem no céu os teus poderes.
D’ambrósia vives, em néctares te sacias
Pairas qual fêmea que Juno protege.
- P’ra te alcançar favores diz-me das vias;
Hei de segui-las, cego, isso me rege.
Vestal, cujo altar tanto venero;
Por ti, envergarei dogma austero
Por ti, me negarei outros contentos.
E se minh’alma justa a considerares
E por bem te merecer, a aspirares
Que ela saiba da tua esses intentos.
_____
Perdoem-me, meus versos
Eugénio de Sá
Perdoem-me, meus versos, se eu não soube
Fazer de vós a glória das paixões
Falar de amor com a tal exaltação
Que arrebata todos os corações
Quando se invadem dessa comoção
Perdoem-me, meus versos, se eu falhei
Ao dar em vós expressão à caridade
E ao aduzir-lhe o valor do perdão
Quis convincente ser à saciedade
Falando da sublime redenção
Perdoem-me, meus versos, se a revolta
Nem sempre vos marcou no que escrevi
Ao querer denunciar tanta vileza
Mas nem sempre dei voz ao que senti
Porque esta se embargava p’la tristeza
Perdoem-me, meus versos, eu quisera
Fazer de vós a voz de uma justiça
Que mitigasse a fome a que a tem
E que a paz transformasse em sã premissa
P’ra o futuro do mundo que aí vem
***
Menino da rua
Eugénio de Sá
Sobrevive num canto, numa enxerga
De um muceque qualquer, de qualquer parte
E a revolta c’o mundo não o verga
À vontade que o quer como um descarte
Menino que perdeste todo o viço
Quem foi que te matou as ilusões?
Quem se esqueceu que és um compromisso
Se tantos como tu são multidões?
Pobre menino nem sabes que o pó
Que te dão pra vender não é mais nada
Que o carrego da cruz na tua estrada
Da rua vens e nela tu te arrastas
Ajudado de longe p’lo sorriso
D’ inimputáveis, a quem lhes és preciso
***
Memória de um amor
Eugénio de Sá
Queres um soneto, far-te-ei então
um que de mim te lembre esta ventura
que sinto ao recordar-te com ternura
do tanto que me deste em emoção
E se a saudade for demais no peito
que te alberga junto ao coração
se a nostalgia me tomar o jeito
Cá estarei a lembrar tua afeição
Nestas coisas do amor não há vitórias
pois se a sério não for nem restam estórias
nem derrota sentida de o perder
E que aos amantes seja conhedida
por mais águas que passem nesta vida
a bonita memória de o viver
***
Não mais, amor, não mais!
( Eugénio de Sá )
Não mais cruzamos luzes num olhar
Não mais nobres momentos partilhamos
Se um tempo aconteceu que nos amamos
Não mais nos damos tempo para amar
Mais te daria amor se inda coubesse
Mais tempo desse tempo que foi teu
Mas a vida passou, tempo venceu
Não mais amor, não mais, inda quisesse
Não mais luares, não mais arrebois
A dourar de beleza o coração
Não mais repetir erros sem perdão
Não mais flores, não mais doces beijos
A sagrar em estesia dois amantes
Não mais nos amaremos com antes
***
Mau grado, as minhas mãos...
Eugénio de Sá
Por detrás destas mãos houve vontade
Hoje sem ela não têm expressão
Que lhes dê corpo e gesto de verdade
Pois sem vontade não há emoção
Estas mãos que aqui vês são só matéria
Sem nervos e sem força ou movimento
São as extremidades da miséria
Desta alma que as manda sem alento
Daí que as minhas mãos hoje não sejam
Mais do que úteis amparos deste corpo
que oram juntas enquanto o fim almejam
E quando enfim cruzadas sobre o peito
Me acompanharem no sono derradeiro
Que eu encontre o perdão nesse meu jeito
***
( Honra e glória aos marinheiros portugueses )
Nau das descobertas
Eugénio de Sá
Ímpio este mar que se ergue firmemente
Frente à proa da nau que nele se afunda
Em cada vagalhão, fauce iracunda
De um novo Adamastor fero e potente
Que quer de nós? - Pergunto firmemente
E o imenso oceano à nossa pequenez
Responde com violência e altivez
Noutro golpe de mar, poderosamente
De presto chega o dia e a bonança
Consigo traz contida na temperança
Alguma calma ao coração cansado
E logo na amurada os olhos ousam
Fitar duas gaivotas que ali pousam
Na esperança de escutarem mais um fado

Estas obras estão licenciadas e protegidas
©2002

Em destaque por Anna Paes às 22h57

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